Manufaturing in Portugal: local handmade homeware to last

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Quanto custa o trabalho?




19 SETEMBRO 2020
Esta semana tive uma longa (e óptima) conversa com a Anabela Bravo que me inspirou para este texto, ao chegar a várias conclusões. Uma das mais importantes é que deixei de acreditar à priori em produtos, projetos ou marcas que se dizem “sustentáveis” e que promovem este aspeto como o mais relevante. De tudo o que li, ouvi e conversei sobre este tema nos últimos anos, conclui que esta é cada vez mais uma manobra de diversão cultural, uma estratégia de marketing travestida de boas intenções, do que um compromisso real com a alteração de um sistema de produção e consumo. Em suma, parece-me que se resume quase sempre a aliviar a culpa ecológica dos consumidores, resolvendo-lhes os dilemas morais no consumo de recursos do planeta.

Por vezes perguntava-me porque me incomodava tanto os discursos desta nova ecologia de influencers: dos produtos sustentáveis, das práticas do waste-zero e da redução do desperdício alimentar. Das matérias orgânicas, dos alimentos biológicos, e das embalagens biodegradáveis. Não posso condenar todos os agentes destas tendências, nem todas as pessoas que se dedicam a alertar para as problemáticas da ecologia. Mas tenho cada vez mais problemas com estes conceitos quando eles só servem para vender produtos, sejam eles quais forem. Em última instância, nada do que produzimos ou consumimos é realmente “sustentável”. Não da forma como o fazemos atualmente, em 2020.

O desequilíbrio do nosso ecossistema é absoluto, e tudo o que podemos fazer são ligeiras correções a este desiquilíbrio. Há uma ilusão da sustentabilidade, em tantas indústrias (moda, agricultura, tecnologia, etc.) cada uma com as suas ambiguidades, que me fez ficar totalmente descrente nesta palavra. Por isso não a uso recorrentemente. Em Portugal, vejo ainda tantos pequenos negócios e plataformas que querem fazer uso desta palavra mágica, para atrair um publico diferenciado. O que vejo que ganhamos com isso é apenas mais produção e mais consumo. E não uma forma radicalmente diferentes de ver a produção e o consumo de bens.

Num outro sentido, queria compreender como poderia traçar linhas entre temas que sinto que estão intimamente ligados, e que eu tinha compreendido de uma forma interseccional. Estes temas são a ecologia, por um lado, e a xenofobia (e até o racismo) por outro. E para ilustrar esta ideia preciso de falar sobre uma das peças da coleção da Mariamélia.


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Os regadores de zinco da coleção da Mariamélia são feitos à mão por um latoeiro da zona de Barcelos, que pela minha experiência, é uma arte em vias de desaparecer muito em breve. Os últimos latoeiros de Barcelos fazem essencialmente peças decorativas, e os que se dedicavam a objetos de uso quotidiano estão progressivamente a desaparecer, porque já quase ninguém lhes compra este tipo de peças. Sei que o artesão que faz estes regadores vai deixar de os fazer e provavelmente, deixar de trabalhar.

Infelizmente, ainda não sei o suficiente sobre este caso porque apenas estando no terreno poderia conhecer a realidade deste artesão. Apenas falando pessoalmente, criando uma relação de confiança, mostrando interesse no trabalho dele, seria possível chegar a testemunhos honestos, (algo que já iniciei com alguns dos artesãos com quem trabalho). Uma das coisas que gostava de poder continuar a fazer seria, mais que um mapeamento dos artesãos de uma dada zona, um mapeamento do conhecimento, técnico, artístico e de manufatura, que está em vias de desaparecer no nosso país. Um conhecimento de quando os objetos quotidianos eram feitos à mão, de quando o artesanato era uma palavra com poucos significados, de quando o mundo nos parecia a todos muito maior. De quando se produziam, em Portugal, coisas que agora só se fazem no sudoeste asiático, por exemplo.

Estes regadores poderão muito bem ser os últimos feitos por aquele artesão. A impossibilidade de colocarmos no mesmo “mercado” um produto utilitário, provavelmente feito no mesmo material, ao preço da chuva, muito provavelmente feito no Oriente, e um produto idêntico, feito inteiramente à mão em Portugal, torna toda esta equação impossível. Mas aquilo que resolve esta equação é muito menos uma descriminação negativa deste “mercado aberto” que nos oferece peças artesanais tão baratas, mas o entendimento que ele apenas é possível porque enquanto o trabalho não for valorizado de forma idêntica em todos os pontos do planeta, estaremos apenas a comparar o que uns têm o direito a ganhar e outros o direito a recusar. Resume-se sempre a questões de direitos humanos básicos: o trabalho de um artesão cambodjano, vietnamita, chinês, vale muito menos do que o mesmo trabalho de um artesão português, romeno, ou marroquino. E constroem-se hierarquias de exploração, que permitimos, ao selecionarmos aquilo que achamos que é devidamente “sustententável”. E fazêmo-lo, tanto enquanto consumidores como enquanto produtores.

A forma como o nosso tempo é pago, como orçamentamos o nosso trabalho, será refletida na forma como o fazemos com o trabalhos dos outros. Então porque é indiscutível que um cesto de palma marroquino custe um quinto que um cesto algarvio? Porque é aceitável que um banneton de cana vietnamita custe um décimo de uma banneton de vime europeu? Porque nos parece compreensível encomendar online produtos chineses, a um centésimo do que pagaríamos pelo mesmo produto feito na Europa ou nos EUA? A resposta não é a globalização. A resposta é que, apesar de um mercado globalizado, e de sabermos gerlamente quem faz o quê, o valor do trabalho em cada ponto do globo continua a ser drasticamente diferente. O trabalho em Portugal vale muito menos que na Suécia, mas mais do que na Bielorrússia. O trabalho na China vale próximo de nada, mas vale ainda menos no Sudão ou na Somália. E patrocinamos todos estes desequilíbrios quando nos propomos a comprar produtos sustentáveis, que nos oferecem algodão “orgânico”, papel de florestas “sustentáveis”, ou carros elétricos feitos com baterias de lítio extraído longe de onde vivemos (até ver).


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Um bom exemplo da especulação sobre o valor do trabalho artesanal é visível na famosa “Birkin Basket”, a cesta de cana do Algarve, que, mais de 50 anos depois de ficar famosa nos braços de Jane Birkin, que as comprou no Algarve dos anos 60, é agora vendida em vários sites online, a pelo menos o triplo do valor que eu proponho na Mariamélia, o que me parece uma multiplicação pelo menos por 10 do valor a que o artesão vende, que é, desde já, um valor muito baixo. Para os mercados “ricos” dos EUA, do Canadá, da Europa do Norte e da Austrália, somos artesãos cambojanos. Para os artesãos cambodjanos, os consumidores portugueses são dinamarqueses.

Todas estas classificações são apenas provocações, mas servem só o propósito de ilustrar a forma como a xenofobia é uma estratégia activa de segregação e hierarquização social mas também do valor do outro, no mapa comercial mundial. E de como muita da estratégia ocidental de produzir bens de forma sustentável, tem sido, largamente, mais uma manobra dos mercados de nos convencerem de que é possível consumir de uma maneira na qual não temos de saber onde, como e por quem são produzidos as coisas que compramos, e principalmente, quanto ganham essas pessoas e que vida têm elas com esses salários. Porque o verdadeiro humanismo não pode ser seletivo — "do mal o menos" —,  a luta ecológica deve ser um empreendimento global, em prol de todos, e que compreenda e incorpore os desafios de construir verdadeiras alternativas num mundo historicamente desigual. Porque sem considerar esta desigualdade estrutural, estaremos apenas a patrocinar uma hegemonia eurocêntrica ao falarmos de sustentabilidade para podermos continuar a comprar e a vender, sempre mais.


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