Pão e manufatura




3 ABRIL 2020
Começar pelas questões do trabalho e da manufatura, é um bom caminho para poder desconstruir os processos de produção e assim poder tornar visível a forma distorcida com que o capital nos coloca perante o valor do trabalho, principalmente do trabalho artesanal. Porquê que o artesanal é tão caro em algumas plataformas (geralmente nas cidades) e tão barato noutras (geralmente fora das grandes cidades)? Porquê que os artesãos vendem os seus produtos ao desbarato?

E que melhor forma de falar de política através dos objectos que falar de pão? Porque fazer o nosso pão, escolher farinhas, apoiar agricultores locais que produzem variedades de cereais antigos antigas… são escolhas muito pequenas mas que em crescendo são o desenho de uma outra estrutura social e ambiental: um desejo de um sistema realmente diferente. O pão como o alimento primordial nas culturas humanas tem um papel simbólico e paradigmático na forma como se gerem os alimentos: de onde vêm os cereais, quem os cultiva e de que forma? Porque é que passamos a importar praticamente todo o trigo quando haviam espécies antigas de trigo autóctone em Portugal? E o centeio do norte do país? E as questões sobre quem faz o pão, de como o pão passou a ser feito pelos homens com a industrialização deste alimento, que antes era feito em casa e nos fornos comunitários, pelas mulheres. De como o artesanal está ligado ao doméstico e portanto, às mulheres, e o industrial, no domínio técnico e das máquinas, aos homens. E de como estas lógicas se perpetuam socialmente, e nos intoxicam porque viciam comportamentos e alimentam um sistema de exclusão, de separação, ao invés de um sistema que inclua todos de forma horizontal e realmente livre.

A loucura de me pôr a fazer cestos de fermentação com os cesteiros do Minho, tem me feito conseguir provar que uma mão cheia dos meus idealismos ainda fazem sentido e são talvez, mais válidos que nunca. Numa altura em que parece que nos podemos pôr finalmente em bicos de pés em relação ao futuro e não temos outra escolha que viver o presente, faz sentido perguntarmos-nos se o que desejávamos ontem ainda são as mesmas coisas.

Se essas coisas também forem pão e quiserem avançar nessa verdadeira aventura de fazerem o vosso apenas com farinha, água, sal e bactérias, visitem este link para adquirirem os cestos ou só para enviarem àquele amigo que sempre quis fazer pão (ou alguém que queira muito apoiar a Mariamélia).


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