O pão é político




3 ABRIL 2020
Fazer pão voltou a ser uma rotina devido à quarentena. Ao partilhar o processo e as receitas que vou seguindo, apercebi-me do papel político deste alimento e de como fazer pão, de uma forma doméstica, geralmente desvalorizada, pode ser uma verdadeira forma de resistência.

A forma como comecei este projeto e aquilo que me levou a fazer cestos de fermentação foram sempre rituais de fazer em casa, o resultado de valorizar os rituais em casa como forma de pertença e de presença, e até para ultrapassar fases mais difíceis. Fazer pão é mais uma daquelas coisas que se fazem para desligar. Estar em casa, sentir o ritmo da vida em casa, desligar através do pão, das plantas, dos livros… Se estas coisas soavam apenas a lugares-comuns das filosofias de lifestyle auto-consciente e ambientalmente sustentável, isso também acontecia porque estes termos e ideias estavam a ser constantemente resgatadas pelo mercado para vender um pouco de tudo, sem filtros. E então, passamos a ser mais cínicos com os ideais, porque eles são constantemente resgatados pelo sistema de consumo, tal como passamos a desacreditar o sistema político (e os próprios políticos) com as consequências desastrosas que conhecemos hoje desta crise de confiança.

Dentro desta cacofonia de lifestyles e tendências, era particularmente difícil fazer passar uma mensagem que soava igual às outras, mas que era fundamentalmente diferente até porque isso é o que todas as marcas diziam de si mesmas. E foi então que passei a a ler (e escrever) mais sobre o papel social dos objetos, uma ideia de consumo alicerçada nas pessoas, no valor do trabalho, na coesão social, e no papel que os ofícios podem ter numa sociedade pós-industrial, descrente, e viciada em comprar e em criar novos produtos para comprar.

Hoje tenho cada vez menos dúvidas que tal como os objetos que são feitos para durar, as boas ideias também não passam de moda. Que aquilo que eu quero construir, com meia-dúzia de bons produtos e alguns ateliers de produção artesanal não é uma missão em vão, que os produtos só por si, e pelo valor do seu trabalho, haverão de provar as suas ideias para além do seu valor. Ao contrário de serem percebidos como adereços de outra era, como tantas vezes são abordados. Nada neste projeto pretende tornar-se um fetichismo, um revivalismo, ou até uma missão nacionalista de defesa da produção local. A ideia é pensar aquilo que está por trás de cada coisa que compramos e poder entregar o conhecimento sobre a origem de cada uma dessas coisas e dos seus caminhos: de cada um dos materiais, de cada pessoa envolvida em fazer chegar um produto até ao outro. Explicar aquilo que o dinheiro paga, e aquilo que não paga é também uma boa forma de relativizar o próprio dinheiro. Porque é preciso conhecer quem está atrás das coisas, das marcas, dos negócios, dos objetos, para nos podermos realmente transformar num outro tipo de consumidor, e pelo caminho, em cidadãos plenos.

PÃO
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