Manufaturing in Portugal: local handmade homeware to last

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FOTO: FILIPA CRUZ




O pão é político




3 ABRIL 2020
Fazer pão voltou a ser uma rotina devido à quarentena. Ao partilhar o processo e as receitas que vou seguindo, apercebi-me do papel político deste alimento e de como fazer pão, de uma forma doméstica, geralmente desvalorizada, pode ser uma verdadeira forma de resistência.

A forma como comecei este projeto, ou aquilo que me levou a fazer cestos de fermentação foram sempre coisas de fazer em casa, celebrar a casa, valorizar os rituais em casa como forma de pertença, de presença e até para ultrapassar fases mais difíceis. Pão é mais uma daquelas coisas que se fazem para desligar, tal como ler, cuidar das plantas, tricotar, cozinhar ou pintar paredes. Quando comecei a fazer pão, há quase quatro anos atrás, não imaginava que conseguiria fazer pão tão bom como em padarias profissionais ou daquele pão de forno a lenha. Hoje em dia, com a qualidade decrescente do pão industrial e a dificuldade, nas cidades, em aceder a pão “mais” artesanal, fazer o próprio pão passou a ser uma alternativa cada vez mais provável nas casas de muitas pessoas. Ter mais tempo em casa, a par de um ritmo de vida menos pautado pelo consumo constante, e estar mais “em controlo” do nosso tempo, são outras motivações para esta mudança.

Rapidamente, com uma rotina quinzenal, fazer pão tornou-se um ritual dos fins-de-semana. O único investimento tinha sido uma panela de ferro (daquela marca sueca) e uma espátula de cozinha que era realmente uma espátula para cimento, mas que durante algum tempo foi útil para conseguir manipular a massa muito hidratada (no entanto não aconselho, convém usar materiais que se possam usar em segurança com alimentos). E durante cerca de um ano foi um processo de tentativa-erro, com pães mais comestíveis que outros, mas sempre saborosos. Em cerca de um ano os pães começaram a ficar redondos, fofos e elegantes. O processo era-me mais familiar e fazia pão mais vezes, até começar a tentar ensinar outros amigos a fazer o mesmo. Tinha vontade de melhorar os utensílios, e os cestas de vime chinês que usava, feitas num material muito fino, estavam quase a desfazer-se (porque também eram muito antigas). Na altura tinha começado a frequentar a Feira de Barcelos e lembrei-me de pedir à senhora que vendia cestaria para me fazer alguns cestos em vime a partir daqueles. Mais tarde percebi que aquele modelo era sensivelmente o que era usado noutras padarias que começavam entretanto a produzir pão de fermentação natural. Quando os cestos ficaram prontos, tentei desenvolver um forro que se adaptasse a estes cestos de uma forma ideal, e com uma qualidade de acabamentos que dignificasse a peça. Chateava-me a insignificância que era dotadas a estes objetos, que além de incrivelmente úteis e duráveis, eram tão bonitos. Babava-me com as imagens de padarias nórdicas com cestos de vime e linho empilhados até ao teto e brevemente apercebi-me que até por cá havia quem repetisse este processo com as matérias-primas locais, o caso da Padaria Gleba (e mais tarde da Masseira) que têm os seus próprios cestos de fermentação.

A ideia tinha sido fazer um cesto para mim, que fazia pão em casa, por isso estes cestos destinavam-se aos padeiros de “trazer por casa”. Eram relativamente pequenos e redondos o que se adaptava geralmente bem ao método caseiro de fazer pão de fermentação natural, cozendo-o num tacho ou mesmo diretamente no tabuleiro do forno.

Fazer pão é mais uma daquelas coisas que se fazem para desligar. Estar em casa, sentir o ritmo da vida em casa, desligar através do pão, das plantas, dos livros… Se estas coisas soavam apenas a lugares-comuns das filosofias de lifestyle auto-consciente e ambientalmente sustentável, isso também acontecia porque estes termos e ideias estavam a ser constantemente resgatadas pelo mercado para vender um pouco de tudo, sem filtros. E então, passamos a ser mais cínicos com os ideais, porque eles são constantemente resgatados pelo sistema de consumo, tal como passamos a desacreditar o sistema político (e os próprios políticos) com as consequências desastrosas que conhecemos hoje desta crise de confiança.

Dentro desta cacofonia de lifestyles e tendências, era particularmente difícil fazer passar uma mensagem que soava igual às outras, mas que era fundamentalmente diferente até porque isso é o que todas as marcas diziam de si mesmas. E foi então que passei a a ler (e escrever) mais sobre o papel social dos objetos, uma ideia de consumo alicerçada nas pessoas, no valor do trabalho, na coesão social, e no papel que os ofícios podem ter numa sociedade pós-industrial, descrente, e viciada em comprar e em criar novos produtos para comprar.

Hoje tenho cada vez menos dúvidas que tal como os objetos que são feitos para durar, as boas ideias também não passam de moda. Que aquilo que eu quero construir, com meia-dúzia de bons produtos e alguns ateliers de produção artesanal não é uma missão em vão, que os produtos só por si, e pelo valor do seu trabalho, haverão de provar as suas ideias para além do seu valor. Ao contrário de serem percebidos como adereços de outra era, como tantas vezes são abordados. Nada neste projeto pretende tornar-se um fetichismo, um revivalismo, ou até uma missão nacionalista de defesa da produção local. A ideia é pensar aquilo que está por trás de cada coisa que compramos e poder entregar o conhecimento sobre a origem de cada uma dessas coisas e dos seus caminhos: de cada um dos materiais, de cada pessoa envolvida em fazer chegar um produto até ao outro. Explicar aquilo que o dinheiro paga, e aquilo que não paga é também uma boa forma de relativizar o próprio dinheiro. Porque é preciso conhecer quem está atrás das coisas, das marcas, dos negócios, dos objetos, para nos podermos realmente transformar num outro tipo de consumidor, e pelo caminho, em cidadãos plenos.


PÃO
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