Alguns dilemas morais 




23 SETEMBRO 2020
Normalmente as marcas não se justificam quando sobem os preços, e o mais comum é que os desçam ao longo do tempo, principalmente quando um produto tem sucesso. Ora, na Mariamélia, tudo funciona um pouco ao contrário das lógicas comuns “do mercado”. Na verdade, os produtos artesanais “devem” encarecer ao longo do tempo — como se fossem casas — porque apesar de serem objetos, são objetos raros num tempo de massificação da produção (também) artesanal.

Não sei se a próxima geração em Portugal poderá vir a poder comprar cestos de vime a artesãos nacionais. Não serão os mesmos artesãos, e muito provavelmente, nem os mesmos cestos. E isto deverá colocar-nos várias questões. Acerca do trabalho que é feito por uma geração que não consideramos apto a ser feito pelas próximas. Não deveríamos nós estar já a fazer essa transição, de dignidade e de valor, do trabalho artesanal? Não nos deveríamos opôr, como makers, designers, artesãos, e consumidores a uma forma de ver o “artesanato” como um bibelô?  

Estas são apenas algumas reflexões que faço, intimamente, quando passo semanas indecisa sobre escrever ou não sobre um determinado assunto. Pesando os prós e contras, pensando se não será demais, se não estarei a exagerar, se isso não irá afastar possíveis clientes, se as pessoas vão perceber o que quero dizer, ou se vão achá-lo um discurso prepotente. Para além de todas estes dilemas, ainda acrescem todos os imponderáveis ao processo de desenvolvimento dos produtos: um artífice especializado que fica sem o seu espaço de trabalho e tem de se mudar para longe da cidade; uma matéria-prima que conseguia facilmente adquirir num revendedor e que entretanto não irá encomendar mais este material; um artesão que não fará mais uma determinada peça; outro que não tem disponibilidade e paciência para desenvolver um produto novo por medidas.

São demasiadas as coisas que me atrasam, que me puxam para querer desistir de todos os processos difícil, custosos e morosos. No final, a sensação é que não tenho nada nas mãos. Não falo exatamente de ter um projeto com sucesso financeiro, essa é uma certeza que tenho que não vou construir neste caminho, mas sim de uma coisa reconhecível enquanto portadora de um conjunto de princípios e ideias que sejam de valor, que façam a diferença a alguém. Que pesem nas decisões de trabalho, nas decisões de consumo, na forma como lemos o mundo, na forma como navegamos esta internet, como experienciamos as relações de produção e consumo de objetos, que nos coloque, por uma vez que seja, uma questão sobre a qual vale a pena pensar cinco minutos, que vale a pena discutir com o amigo, que queremos partilhar com alguém. E assim, boca a boca, gesto a gesto, mudar o mundo, que, por muito pouco que seja, já será imenso.

Tenho demasiadas ideias para pôr em prática e que se relacionam cada vez menos com produtos. Nunca fui uma designer no sentido do design industrial ou do design de produto, tão pouco sou uma designer gráfica como me ensinaram que deviam ser os designers gráficos. Dentro da prática, de qualquer disciplina, temos de compreender que há milhares de formas de fazer uma coisa, e eu descobri, após muitos anos, que ao contrário dos criativos que pensam ao desenhar, ao esquematizar, ao projetar, eu penso, essencialmente, ao escrever. E que esta escrita não é “copyright”, não é “escrita criativa”, não é só “crítica social”, nem tão pouco pretende ter um sentido jornalístico, ou de reportagem. No entanto, quase tudo o que faço se encaixa num pouco de cada uma destes “géneros”. Tenho de vender produtos, tenho de entreter o meu público, tenho de ser crítica para não ser supérflua, tenho de investigar para ser credível, e tenho de procurar relatar o que vejo da forma mais interessante possível. No entanto, não sou leitora assídua de nenhum destes formatos.

A grande maioria das pessoas que leio diariamente são escritores e professores universitários de diferentes áreas, com um foco nas ciências sociais e no design. Os bloggers que ainda leio ou são escritores, ou designers, ou artistas. Os artigos que procuro estão em cada vez menos em grandes publicações nacionais ou internacionais, e cada vez mais em pequenos projetos editoriais independentes. Os músicos que oiço são maioritariamente “indie”, porque pertencem às novas pequenas editoras, quando não são auto-editados. Posto isto, esta bolha de pensamento em que vivo deveria ser auto-explicativa de uma tendência para pensar questões macro, e concentrar-me menos em desenhar o melhor banneton possível. Há seis anos atrás não sabia que raio que era um banneton. Procuro instintivamente por objetos, ou práticas, que me permitam aprofundar ideias que me martelam a cabeça. Antes tinha sido o tricot, essa prática marginalizada das artes têxteis pela sua associação histórica como ofício doméstico e feminino. Interessam-me os artefactos para poder escrever sobre os seus sistemas de produção, a forma como ocupam o seu lugar na sociedade e porque não ocupam outro.

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