A propósito de transparência




29 MAIO 2020
Tenho pensado muitas vezes sobre as coisas que me disseram, quando tive a ideia de, não apenas revelar os artesãos e artífices por trás dos produtos que queria vender, mas de fazer dos seus nomes e da sua prática, o coração deste projeto. O primeiro mito era que as pessoas iam poder identificar estes artesãos e iam preferir comprar-lhes a eles diretamente as suas peças. Esta ideia colocava-me perante a noção de que o meu trabalho seria meramente um trabalho de revenda, comprando barato junto dos artesãos e revendendo caro estas peças a um público tendencialmente urbano. Este era o clichê que eu não queria alimentar porque se baseava, não só numa mentira mas numa perversão: era simplesmente uma ideia de exploração do trabalho dos outros.

A única alternativa para vender estas peças de uma forma construtiva seria, por um lado, acrescentar-lhes funcionalidades, novas ideias, outros materiais — num processo de redesign — e, por outro lado, acrescentar-lhe ideias e contexto cultural. Mas havia uma terceira parte desta equação que era essencial para poder ser transparente: o trabalho tinha de ser pago de forma justa e não podia procurar baixar os preços, já normalmente baixos, do trabalho desta manufatura. Era imperativo haver um sentido social.

No contexto de um projeto sem apoios, sem fundos, sem mecenas, sem empréstimos, que vive de um constante reinvestimento dos ganhos, a tentação de “esconder o segredo” é sempre maior que as ideias de transparência. O medo de falhar no negócio e pôr em risco o investimento feito parecia-me nunca ser tão grave como o medo de falhar eticamente, nos princípios que me propus perseguir com a Mariamélia.

E tantas vezes me atormentava com a transparência que nunca me parecia suficiente. E se este produto não tem qualidade suficiente? E se aquele produto afinal não é feito como me dizem que é? E se a pessoa que faz aquilo afinal também subcontrata outra, quanto é que essa pessoa ganha? Será que as informações que passo sobre cada matéria e cada peça são realmente verdade?

A conclusão é só uma: nunca vou saber. Nunca vou poder conhecer exatamente a cadeia total das coisas, a origem de todas as matérias ou a verdade sobre cada mão que tocou naquilo que vou vender. Mas posso ser o mais transparente possível com os meus e clientes sobre estes processos. Seja ao explicar porquê que não posso fazer descontos sobre quantidades como se fosse uma fábrica, ao detalhar os passos em que é esmaltado um candeeiro ou publicando os nomes dos profissionais com quem colaboro. O único resultado de um discurso de honestidade tem de ser a confiança. E faço-o não apenas para convencer os meus clientes de que cada produto tem valor (para além de si mesmo), mas para que eu própria acredite nos propósitos desta missão. Acreditar todos os dias não é fácil porque todos os dias há dúvidas novas, há indecisões e há surpresas. Nada neste caminho é linear, daí a importância da transparência e da honestidade.

Em tempos eu imaginava que uma postura assim só era reveladora de amadorismo e inexperiência — duas coisas que me atormentavam. Mas a verdade é que nunca fiz exatamente o que estou a fazer agora, e sinto muitas vezes que estou a inventar a roda, de tal forma que me sinto isolada nas minhas práticas. Agora sei que o mais difícil é mesmo a persistência, não só no fazer mas no acreditar no que se quer fazer. Porque vão sempre haver conflitos entre o que imaginámos e o que é possível, a cada tempo.

Com (ainda) mais tempo e empenho vou fazendo um caminho para a transparência e para a honestidade, em que possamos todos ficar a ganhar. Em que o trabalho destes artesãos se torne mais visível e em que esta visibilidade nos faça questionar a forma como as coisas são feitas e como chegam até nós. Em que esta verdade possa contaminar outros que queiram fazer disto um método, nos seus negócios ou na sua vida. Em que possamos todos abandonar o cinismo que nos é forçado diariamente na procura de soluções sustentáveis: porque se partirmos sempre da mentira e da manipulação, o resultado será sempre tão cínico como as ideias que o motivaram. Este não é um apelo a um exame de consciência pessoal mas um apelo à confiança (no outro), que ao invés da desconfiança, só pode criar pessoas melhores, e portanto, espero, um mundo mais justo.


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